Passei a semana inteira pensando em escrever alguma coisa sobre o meu aniversário, afinal hoje estou entrando na casa dos “inta”.
Completar 30 anos faz você refletir. Como não olhar para o passado? Nas coisas que ficaram lá longe e hoje já não existem mais? Pensar no que eu fui, no que sou hoje e no que me tornarei daqui para frente? Tenho uma sensação gigantesca de que a vida está passando rápido demais e uma incerteza maior do que nunca sobre estar ou não fazendo tudo o que posso por mim e pelas pessoas que eu amo.
A gente também pára para pensar no que construiu até então, e disso, ah, eu não tenho do que reclamar. Tenho amigos que posso contar nos dedos de uma das mãos e me sinto privilegiada por poder chamá-los de amigos. Tenho uma família que não existe nem adjetivos para descrever. Escolhi o cara mais maravilhoso do mundo para ficar do meu lado e sou correspondida! Tive uma filha linda, doce e saudável. Trinta anos e eu me sinto apenas começando…parabéns pra mim!!!!

Essa crônica foi extraída do livro “Mulher Madura”. Achei ótima.
QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.
Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.
Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.
Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.
Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.
Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.
Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.
Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
Affonso Romano de Sant’Anna
Este texto foi escrito Domingo, 18 de Maio de 2008 às 00:10 sob a(s) categoria(s) Aconteceu, virou manchete. Você pode acompanhar os comentários via o feed RSS 2.0. Comentários e trackbacks encerrados.

11 comentários em “Madura, eu?”
Oi, Anna! 30 aninhos?! Não fica deprê não, você está novinha ainda! Eu, este ano completo trinta e… ops! vinte e cinco! :-)))))
Parabéns!!! Tudo de bom pra você.
Bjo!
Parabéns Anna pelos trinta anos.Adorei o que você escreveu sobre o assunto e também a crõnica do Affonso Romano, tudo verdade. Muita saúde e Paz. Beijos na Clara e no Cris. Mariana e walter também mandam beijos.
Sabe o que eu acho mais assustador? É que nos vinte aidna dá para se desvencilhar do rótulo, mas com 30 não tem mais como fugir de ser, pelo menos oficialmente, uma ADULTA!
Daqui a uns meses é a minha vez. E eu admito que estou com o maior medão.
40…truco.;0)
Parabéns, fazer 30 é uma delícia.
É engraçado ver como os jovens de hoje se preocupam mais com a idade, apesar da expectativa de vida ter aumentado. Eu não me preocupei ao fazer 30, 40 ou 50 anos, mas me arrazei quando fiz 60. Não dá mais tempo para fazer planos longos, não dá mais para engravidar quando se tem saudades de um bebê. Tudo já era. Só nos resta colher e curtir as coisas boas que plantamos: nossa família.
Parabéns, Anna! (:
Tem mais de um ano que acompanho seu blog. Te acho uma fofa, sigo o Cris no Twitter (e você também, apesar de que você nunca escreve) e acho a Clara tão fofa, mas tão fofa, que já decidi: se um dia eu tiver uma filha, ela também vai se chamar Clara.
Parabéns pelos trinta anos. O tempo passa e a doçura só aumenta, pelo visto.
Um beijo,
Flávia.
Que bonito, Anna…
Desde a época do Canadá que leio os blogs de vocês (começando por ele, pela raiz desenvolvedor) e me emocionei de verdade ao ponto de só agora sentir uma grande vontade de enviar um comentário.
Que bonito! Estava sentindo hoje tanta saudade de minha família deixada há 1 ano em Minas pra eu poder estudar, que esse tipo de relato me mostra que essa “saudadezinha” que sinto não é nada perto do resto que me vem Chamado Vida.
Ainda sentirei maiores; ainda terei mais orgulho.
Beijão…
querida!!!
não esqueci do seu ani, só que tive vários problemas, minha mãe está doente, eu meus irmãos estamos nos desdobrando para ajudá-los, estão idosos. Lá no trabalho estou com muitas tarefas, coordenando programas sociais e por aí vaíiii!!então, feliz aniversário, saúde,paz amor e que Deus te ilumine!! e que idade linda!!!
bjs,
Nailda
ANA…FAÇO TRINTA ANOS AMANHA….PENSO EM TANTA COISA AO MESMO TEMPO….LEMBRANÇAS E MAIS LEMBRANÇAS…MAS ME SINTO PRONTA PARA MUDAR DE PLANOS A QUALQUER HORA….CHEGA DE ME APEGAR A COISAS E FATOS QUE NEM SEI PQ ME APEGO…ACHO QUE ESTOU CONFUSA AINDA….
BEIJOS
Eu fui na fesTÁ! \o/
Annaaaaaaaaa! Atualizaaaaaaa! :-p
( )’s
Oi! Desculpe postar aqui, mas queria mesmo saber como fazer uma poltrona com garrafas Pet. Sei fazer o puff, mas a poltrona não sei. Pode me mandar um e-mail contando passo a passo? Obrigada.
Bjs
Esse blog é show!
Marcella