quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Desde a primeira vez que a mãe de Pedro contou-lhe a fábula de João e o Pé de Feijão, ele adquiriu uma espécie de fixação pela história e dormia logo em seguida quando qualquer uma lhe fosse lida ao pé da cama. Nenhuma outra despertava tanto interesse no menino.

Desde então, passou grande parte de sua vida sonhando que o gigante vinha para levá-lo a seu reino e sempre que estava pronto a abdicar da proximidade a família e aos amigos, acordava bruscamente como se aquilo fosse um pesadelo. Mas com o tempo, a idéia de conhecer o universo que tanto mirabolou por toda infância e juventude, não lhe causava qualquer medo, angústia ou aflição.

Muitos anos se passaram até o dia em que Pedro finalmente sonhou que subia sozinho o infindável pé de feijão até as nuvens e chegava numa grande metrópole, onde o gigante reinava. Ficou fascinado com tudo que viu, queria tocar nos automóveis, edifícios e nos seres tão diferentes dos que costumavam habitar seu imaginário.

Todas aquelas cores foram gradativamente escondendo-se sob as nuvens até que Pedro não podia enxergar quase nada além do branco, que foi tornando-se cinza e definitivamente, ele não podia ver sequer um palmo à sua frente.

Pedro não se desesperou. Na verdade permaneceu bem calmo com a idéia da escuridão. E nunca mais acordou.

Anna Paula Maron, 09:54 | Comente (3) | Ai, lá vem você?

sexta-feira, 12 de março de 2004

Finalmente depois de várias noites passadas em claro, ela conseguiu ir dormir cedo. Meia-noite tocou o telefone:

- Alô? – atendeu com voz dormida
- Oi, já tá dormindo??
- Por incrível que pareça, já.
- Tudo bem. Só liguei pra desejar boa noite e dizer que eu te amo.
- Eu também te amo. Beijinho.

E desligou com aquele sorrisinho de contentamento no rosto....aí, ela perdeu o tão almejado sono que por dias aguardava chegar.

Mas convenhamos... podia reclamar? ;o)

Anna Paula Maron, 02:42 | Comente (10) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Blim Blom

- Boa tarde.
- Boa tarde, sr. Tenório?
- Eu mesmo. Em que posso ajudar?
- Ouvi dizer que o senhor é especialista em procurar pessoas desaparecidas no mundo inteiro, é verdade?
- Entre por favor. É sim...mas qual é o problema?
- Bom, é o seguinte: meu irmão se casou com uma americana. Ele nos enviava frequentemente correspondências desde que foi para os EUA. Depois de dois meses sem mandar notícias, começamos a achar estranho e entramos em contato com a sua mulher, que disse que ele havia ido embora sem dar satisfação. Está há cinco meses desaparecido.
- Ah, me desculpe. Eu só procuro pessoas desaparecidas em enchentes.
- Em enchentes??
- Isso.
- Como assim? E se eu dissesse que meu irmão desapareceu numa enchente, você iria procurar?
- Iria.
- Você é maluco ou o quê?? Passar bem!

Na hora em que a moça bateu a porta, Tenório se perguntou pela primeira vez em mais de dez anos de carreira, porque era tão difícil ganhar dinheiro com aquela profissão...

Anna Paula Maron, 00:59 | Comente (10) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

lágrimasQuando notou que o velocímetro passava dos cento e quarenta por hora, abriu o vidro, deixou que o vento batesse em seu rosto e a deixasse descabelada. Fechou os olhos e sorriu.

Som e temperatura haviam mudado, sentiu um friozinho na barriga. A sensação era boa, boa, boa. Um túnel? Achava que sim.

Lembrou da última vez que esteve numa montanha-russa! Nossa....fazia tanto tempo.

E sentiu uma lágrima escorrer. Não sabia se era de felicidade ou de saudade. Mas também não teve tempo para decifrar. Ela nunca soube.

Anna Paula Maron, 23:33 | Comente (5) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 24 de novembro de 2003

cicero-sapo.jpgFoi um encontro inesperado: ele era grande. Na verdade enorme.

Veio pulando em minha direção e não pude evitar que aquela massa molenga e pegajosa entrasse minha boca adentro. Pensei em cuspir, não conseguia mastigar, o gosto era ruim demais! Tive ânsia de vômito, mas finalmente engoli.

Pelo menos escorregou direto para o estômago. Está lá até agora. Ugh.

Anna Paula Maron, 07:36 | Comente (12) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 11 de novembro de 2003

- Eu gosto de escrever, sabia?

- É mesmo? Que interessante....e que tipo de coisa você escreve?

- Er......ah, sobre qualquer coisa que me venha a cabeça. Normalmente sobre o que eu costumo ler.

- E o que você gosta de ler?

- Não é que eu goste. Só costumo.

- Mas você costuma ler coisas que não gosta? O que te leva a fazer isso?

- Não tô entendendo. Isso aqui não é uma sessão de psicanálise freudiana? Por que você tá me fazendo tantas perguntas? Não é para só EU falar, você ouvir, dizer que o tempo acabou, marcar outra consulta e encher o bolso de dinheiro com isso?

- Hehehehehe.... e quem foi que te falou que deveria ser assim?

- Acho que você tá fazendo perguntas demais. Quem tem que falar aqui sou eu. Eu te fiz uma pergunta retórica, ia só continuar meu raciocínio e você interrompeu todo um processo.

- Hummmm. Então você entende de psicanálise?

- Querido, não há muito o que entender. Numa frase eu já resumi tudo que importa.

- Pois não é que o seu tempo acabou?

- Eu não falei? HhahaahahHaahahHAHAHAHAhahahaHAhahahHAHAHAHahahaha.

_________ ___________ ___________

- Escrevi um diálogo esquisito sobre uma hipotética conversa entre nós.

- Quer falar sobre isso?

- Mas é claro que eu quero falar, senão não tinha dito.

- Hum.

- Então eu imaginei você me interrompendo no meio de uma sessão, me atropelando com perguntas das quais eu não sabia as respostas. Eu fiquei nervosa, comecei a gritar, dizer desaforos e rir como uma louca.

- ...

- E aí acabou. Só não consigo entender porque eu fiz isso. Gostariaquevocêmedissesse. Pronto, falei.

- Hum. Por quê?

- Ora, por quê?! Porque eu fico falando que nem uma retardada aqui durante quase uma hora e você só fica nesse "hum, hum, hum". Tô de saco cheio dessa palhaçada, tá pensando que meu dinheiro é capim?

- Ei, calma. Fale sobre o sonho....quer dizer, o diálogo.

- Tá vendo só? Nem prestar atenção no que eu falo você presta, pra conversar com a parede, eu fico em casa!

- Tsc, tsc, tsc....ainda não entendi o motivo de tanta exaltação.

- Eu só queria ouvir você falar....

- E não está ouvindo? Tudo o que está acontecendo desde o momento em que você entrou por aquela porta está sendo analisado.

- Er....é?

- É.

- Ok. Me desculpe, deixa eu voltar de onde parei.

- Jô, seu tempo acabou.

- Obrigada, doutor. Nos vemos amanhã.

___________ ___________ ____________

- Tinha vontade de fazer psicanálise pra ver como é.

- Eu também.

Anna Paula Maron, 07:41 | Comente (8) | Ai, lá vem você?

quarta-feira, 22 de outubro de 2003

- Acho essa nossa relação muito tumultuada. A gente só vive brigando... que saco!

..........

- Acho essa nossa relação muito instável. Uma hora a gente tá numa boa, outra tá brigado... que saco!

..........

- Acho essa nossa relação muito monótona. A gente nem briga.... que saco!

..........

Existe maneira mais esquisita de justificar o fim de um relacionamento? Eu hein?!

Anna Paula Maron, 19:41 | Comente (7) | Ai, lá vem você?

quarta-feira, 24 de setembro de 2003

Naquela linda tarde de sábado ele se aproximou:

- E aí, beleza? Posso me chegar?

- Eu hein? Mas que abuso. Não tá vendo que eu tenho mais o que fazer?

- Que isso, gata. Eu sei que você me quer.

- Se já não bastasse ser intrometido é ainda pretensioso...

- Ah, vai...me dá só meia horinha. Juro que faço serviço completo.

- E você por acaso acha que eu me contento com meia horinha, seu sacana?

- Olha, eu faço milagres....quer uma prova?

- Se o dia não estivesse tão bonito e se meu tempo não fosse tão curto, até que pensaria no seu caso, sabia?

- Que mané dia bonito e tempo curto! Você não vai se arrepender, gata.

- Mas que insistência, meudeusdocéu. Me deixa.

- Deixo nada. Você acaba se rendendo aos meus encantos que eu sei...

- Seu....seu...seu filho da .....ZzzzZzzzZZZzzzzzZZzz.

E foi assim que ela perdeu a linda tarde de sábado inteiriiiinha.

Anna Paula Maron, 08:59 | Comente (10) | Ai, lá vem você?

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

- Oi. Será que dá pra gente conversar?
- Tudo bem, mas hoje não posso demorar muito pra ir dormir, tá bom?
- Ok, é só pra gente esclarecer umas coisas.
- Então diga, sou toda ouvidos.
- Bom, eu queria saber o que tá acontecendo com você ultimamente. Anda distante, com uns assuntos bestas, parece que só puxa papo por obrigação, simplesmente pra não me magoar sumindo de uma hora pra outra.
- Pôxa, você sabe que não é nada disso. Estou sempre dizendo que ando ocupada, cansada mesmo. Que injusto!
- Ah, cara. Não sei! Você mudou, nunca tem tempo pra mim. Olha, se você tem outro, acho que essa é a hora de dizer. Vou ficar triste, mas prefiro assim.
- Não é nada disso, imbecil! EU AN-DO CAN-SA-DA. Isso tá parecendo papinho de namorada ciumenta, se manca.
- Tá vendo? Vive impaciente, me dando patada. O que foi que eu te fiz? Tudo bem que não sou nenhuma Brastemp, mas tenho me esforçado pra satisfazer seus caprichos por todo esse tempo. Vai negar?
- Ai, cacete. Agora ainda vem com cobrança pra cima de mim. Não é nada com você, tá bom? O problema é comigo. Talvez seja mesmo melhor a gente se afastar por um tempo...
- Não! Não faz isso. Olha, pode continuar vindo aqui uma vez por dia mesmo, nem que seja só pra dizer "oi".
- Hum. Eu só quero que você pare com essa bobagem de que eu tenho outro e de que quero te deixar. Relaxa. As coisas vão se acertar, é só uma questão de tempo.
- Tá bem. Mas não some não, tá?
- Não vou sumir. Agora deixa eu ir deitar que amanhã o dia vai ser duro. Eu amo você, bobão.

O blog decidiu publicar esse nosso papo de ontem sem meu consentimento. O que eu posso fazer? Às vezes ele tem vontade própria....

Anna Paula Maron, 08:05 | Comente (23) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 26 de agosto de 2003

Aquele cara me atraía. E não era pura e simplesmente por seu porte atlético e olhos azuis cristalinos. Aliás, ele estava até bem longe de se encaixar nos padrões estéticos convencionais.

Mesmo discretamente, me empenhava em conhecer seus gostos e interesses. Prestava atenção em todas as atitudes, gestos, tiques e no seu sotaque incomum, mas que eu não conseguia identificar de que parte do país se originava afinal.

Ele não mencionava nada sobre sua vida. O que mais me chamava atenção era sua extrema perspicácia em introduzir assuntos de interesse coletivo e manter-se sempre neutro. Falava e gesticulava pouco. Aquilo me instigava, caramba.

É...e eu não estava só. Todos pareciam estar numa espécie de transe e não falavam em outra coisa. Tinham basicamente as mesmas curiosidades que eu.

Mas esse orgulho exacerbado que eu tenho, não me deixou levar, ser mais um deles ali babando, se oferecendo. Fingia que não me importava com todo aquele charme e mistério, queria acreditar que ele não passava de mais um carinha fazendo estilo.

Os mais supersticiosos chamariam de instinto de preservação ou sexto sentido, sei lá. Só sei que foi por conta desse sentimento que sou a única que está aqui agora pra contar a história.

Mas acho que hoje não é um bom dia para fazer isso...não, ainda não quero falar.

NÃO QUEEERO! NÃAAAAAO! ME LAAAAARGA! ME DEIXA EM PAAazzz....

Anna Paula Maron, 09:13 | Comente (16) | Ai, lá vem você?

quinta-feira, 21 de agosto de 2003

Já reparou como um blog muitas vezes pode ser comparado a um namoro?

Até o momento que você nunca teve, não faz falta. Mas então todo mundo a sua volta tem um....aí você também fica com vontade!

No começo é complicado mesmo, as dúvidas são muitas. Aparência, aparência! Nem sempre conteúdo. A paixão é incondicional: você só pensa nele, em estar sempre perto, quer cuidar, não sabe mais como viver sem.

Com o tempo vai pegando as manhas, aprendendo a lidar com ele. E fica louco para adquirir mais e mais experiência, variar posições...enfim, experimentar.

Mas aí chega uma hora em que você consegue perceber a situação: ele simplesmente passou a ser o centro do seu universo. Você deixou de viver! Deixou de estar com seus amigos para estar com ele, putz...e ele nem é mais aquela coca-cola toda do início. Você começa até a pensar em ter outro. É, precisa mesmo de um tempo.

O momento da separação é difícil. Mas essa é a hora de aproveitar a 'solteirice', ora bolas! Sair com a galera, tomar todas.

Mas essa sensação de liberdade dura pouco. Nah, não demora pra bater a saudade. Você começa a lembrar dos momentos legais que passaram juntos...então, fica lá de longe espiando. E aos pouquinhos vai se chegando novamente, puxando assunto...

O amor fala mais alto. Ou talvez o vício.

Bom, mas aí já não é comigo, procura o seu terapeuta.

Aliás, essa comparação esdrúxula está bem longe da minha realidade. Na verdade hoje em dia, já que estou trabalhando, fico contando os dias para o final de semana, quando vou poder estar mais perto dele. Eu não canso do meu bloguinho não ;o)

Anna Paula Maron, 08:41 | Comente (18) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 18 de agosto de 2003

Esses programas de mensagem instantânea da Internet facilitaram tanto minha vida com os smilies, que não consigo mais viver sem esse tipo de coisa!

Às vezes numa situação da vida real, me pego imitando o íconezinho de sorriso aberto do Y!Messenger ou ainda o que assobia...vai entender?

Eu acho difícil lidar com onomatopéias. Se tem uma coisa que me intriga, são as de risada.

E não sei se faço isso da forma correta ou pelo menos de uma maneira que me faça compreender. O que precisamente cada uma delas quer dizer?

Hahahaha - é aquela abertona, gargalhada simples?
Hehehehe - uma singela risadinha espontânea ou dependendo da situação, sacana?
Hihihihihi - cinismo ou talvez ingenuidade?
Hohohoho - essa traduziria uma espécie de ironia?

Huahuahuahua! seria uma risada maquiavélica? Ou como um leitor do blog sugeriu, a risada maquiavélica é RaRaRarara!, estando esta ainda num estágio abaixo da diabólica que é rurururarARARAra?

Essas são dúvidas que carregarei comigo para o caixão....mas se você colaborar, talvez até ajude, quem sabe?

Acho que nunca usei tantos pontos de interrogação num só post. Ou será que já? (aimeudeus, que onomatopéia se encaixaria melhor agora?)

Anna Paula Maron, 22:45 | Comente (14) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 5 de agosto de 2003

Desde que nascemos nossos pêlos - que possuem como principal função a proteção do corpo - caem dando espaço para outros num ciclo sem fim, né não?

Pois é. Por isso Francis é o que podemos chamar de super protegido. Os pêlos do corpo do menino nunca caem.
Ao nascer com todo aquele cabelo e sem a esperada troca dos fios, realmente causou um estranhamento geral. Com pouco mais de seis meses de vida, o pequeno Francis já cultivava uma cabeleira invejável. Fez uma série de exames que constataram a anomalia jamais registrada anteriormente.

Obviamente, isso gerou uma série de pesquisas e atraiu a atenção da comunidade científica mundial, mas ao contrário do que você deve imaginar, Francis sempre foi o grande orgulho de seus pais. Até porque passou a ganhar rios de dinheiro na confecção de perucas naturais. E Sílvio Santos é o seu cliente mais famoso.

Ok, não sei o que está acontecendo. Estava no banho enxaguando a cabeça e enquanto sentia dezenas de fios de cabelo ficarem entre meus dedos para que logo depois fossem escoados pelo ralo, avistei uma caixinha do sabonete Francis Hydratta e tudo isso passou pela minha cabeça.

Se isso soar meio esquisito, me interna então.

Anna Paula Maron, 13:47 | Comente (8) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 28 de julho de 2003

- Hummmm. Tava pensando aqui...sabe o que a gente podia fazer qualquer dia desses?
- O quê?
- Sair separado, ir para o mesmo lugar e fingir que não se conhece. Que tal?
- Eu hein, Gracinha. Pra que isso?
- Ah, é assim: a gente sai, se encontra, troca uns olhares, eu tomo a iniciativa em ir falar com você. A gente conversa, você me diz que tem uma namorada hiper ciumenta que não pode nem imaginar que você tá lá...
- Que coisa doida é essa? Num gostei disso não. Mas se justamente a namorada ciumenta é você!
- Mas é isso mesmo, Ulisses. Aí eu vou te agarrar e você vai me empurrar, dizer que é fiel.
- Tsc, tsc, tsc...
- Até a hora que não vai mais resistir e me beijar. Ardentemente, como você já não faz mais com a sua namorada há pelo menos uns dois anos.
- E eu não faço não?! - o rapaz perguntou indignado.
- Ai, Ulisses. Como você é sem imaginação! É isso que você vai dizer pra ela - pra mim - né?!
- Que história mais esquisita essa. Aí eu tenho que fazer mais o que?
- Ah, aí você vai vendo na hora....faz o que tiver vontade. Topa? - Gracinha pulou do sofá animadíssima.
- Como assim o que eu tiver vontade? Como é que eu vou agarrar outra mulher assim? Depois não vou conseguir nem olhar na sua cara! - respondeu o rapaz numa mistura de confusão e nervosismo.

- É, você tem razão. - Gracinha foi lentamente fechando o sorriso safado que radiava seu rosto. Sentou-se novamente ao lado do namorado para terminar de assistir a novela das oito.

Não falaram mais no assunto. Pobre Ulisses, nunca tinha sequer pensado na fantasia mais batida de todas! Era tão sem imaginação que nem se zangou de sua namorada estar cogitando sair sozinha por aí e agarrar outro homem...veja só.

Anna Paula Maron, 21:29 | Comente (22) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 14 de julho de 2003

José era um amante inveterado. Muitas mulheres passaram por sua vida - assim como naquela música do Martinho da Vila.

Seu primeiro amor foi Camila - ele tinha apenas dezessete anos. Há um tempo atrás numa viagem ao nordeste do país, foi seduzido por Florentina, mas de amores mesmo, caiu por Dora que dançava frevo e maracatu - ninguém requebrava melhor que a moça. O romance não foi à frente, assim que voltou, apaixonou-se por Rita, uma adorável empregada do metrô. Mesmo sem o consentimento da família, dizia que nada nem ninguém se colocaria entre o casal. Infelizmente com essa também não deu certo. Acabou envolvendo-se com antigas paixões: Angela. Ela estava tão diferente. Já Gabriela, sempre Gabriela.

Dizia a Madalena que o que era dele não se dividia. Conheceu Kátia Flávia, uma louraça belzebu, provocante. Depois veio Mary Jane, com quem gastava todo seu dinheiro.

Passou um bom tempo desiludido. Chegou a fazer um samba-canção com as mentiras de amor que aprendeu com Ligia.

Não queria que Marina pintasse o rosto, amava o jeito que Susie Q andava e falava (Susie era assim chamada, pois José já conhecia outra Susie - essa era casada com um segurança e ele preferiu não se envolver. Seu sobrenome era Cincinnati. Susie Q, era da família Quércia), até gostava das risadas de Irene, mas Amélia sim é que era mulher de verdade (era um machista!).

Começou então a agir diferente, queria ser como Kate. Com Silvia, aprendeu que todo homem que sabe o que quer, pega o pau pra bater na mulher. Chegou ao ponto de jogar pedra em Geni! Conheceu Carolina, mas esta só via o tempo passar na janela. Enquanto isso se divertia com Lucy - com ela costumava dizer que estava no céu (e com diamantes!). Consolava Jude, pedindo que a moça não o levasse a mal e passou meses rogando a Suzana que não chorasse por ele. Depois de tantos desencontros, Anna disse que um outro a amava mais.

A partir daí, acordou do transe cafajeste e voltou a se apaixonar de verdade novamente. Sofreu por Layla, que o deixou implorando de joelhos. Sentiu-se sozinho sem o carinho de Anna Julia e afogou-se em solidão. Fez uma canção pra esquecer Luíza, mas não demorou em ver seu coração entregue a uma moça que não sabia o nome (pouco depois descobriu ser Iris) - queria apenas que ela soubesse quem ele era. Como Isobel, passou um tempo vivendo por si mesmo. Aprendeu com Maria a estranha mania de ter fé na vida, só que não demorou em encontrar Marylou e Sara Lee. Mas e agora, José?

Essa história é tão famosa que todos os personagens acabaram servindo (até hoje) de inspiração para músicos (e poetas) do mundo inteiro na composição de suas canções. Será que você consegue identificá-las?

Anna Paula Maron, 12:51 | Comente (17) | Ai, lá vem você?

sexta-feira, 11 de julho de 2003

Deixei escapar talvez a coisa mais importante que deveria ter dito no post sobre música. Mas se você não está com paciência de ler meus devaneios, vá direto até a última linha desse post.

Certa vez li que "a música é uma objetividade da vontade tão imediata quanto o universo". É uma frase de Schopenhauer.

Com isso ele quis dizer que a música não precisaria do mundo para existir. Numa ironia ao fracasso de seus livros perguntou se um grande maestro deveria se sentir lisonjeado com os aplausos de uma platéia surda. Ele acreditava que não. E por isso não se incomodava com o fracasso dos livros. Sua platéia simplesmente não sabia ouvi-lo e pronto.

O mais interessante é que um alemão genial não via problema numa platéia surda. Ele era surdo. E mesmo surdo, escreveu uma Nona Sinfonia. O que tinha esse homem de tão especial que fazia com que ele acreditasse que os outros iriam ouvi-lo embora ele mesmo não pudesse? Não era apenas sua genialidade que o movia, era algo sublime. Acredito que foi a certeza de estar dançando em sintonia com o universo.

Beijar a pessoa que se ama, fazer amor, talvez tenha a textura de uma música, porque não é possível pensar em nada nesse momento. Acredito que seja mais ou menos essa sensação que faz um surdo escrever uma obra-prima. A simplicidade o torna imponente.

As palavras são uma maneira de domesticar o mundo e torná-lo nosso. Ao olhar um gato, mesmo que você esteja pensando "é um gato", estará cortando calado todos os pequenos detalhes que faziam daquele animal um animal único, que passou a ser aquele que você fabricou. O gato passou a ser apenas o seu discurso.

Amputamos a realidade e a encaixamos dentro de palavras. Não podemos dizer muito através delas, mas é a única maneira que temos para tentar. O império dos sentidos não se conquista pelo discurso.

Eu fecho os olhos quando beijo, faço amor, danço, ouço música. Enxergar é incluir palavras no nosso discurso, pois tudo que vemos tem algum nome. É inevitável. Por isso fecho os olhos e me livro de nomes. Os pensamentos viram fumaça, os sentidos se dissolvem. Não faz mais sentido haver ou não sentido. Isso é mágica.

Música é mágica. E talvez agora seja melhor eu calar a boca.

Anna Paula Maron, 01:21 | Comente (8) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 1 de julho de 2003

Lembra desse conto que por total falta de inspiração ficou sem desfecho mas aí eu publiquei assim mesmo, dane-se?

Só que o Cristiano de Gusmão, um leitor desblogado (não sei por quê) me enviou um final. O final que eu gostaria de ter escrito.

Então se tiver com saco de ler, fique a vontade. O desfecho é dele, apenas com algumas míseras modificações minhas. Valeu, Cristiano! ;o)

Anna Paula Maron, 16:30 | Comente (6) | Ai, lá vem você?

quarta-feira, 25 de junho de 2003

Camila era amável, brincalhona e possuía uma mania no mínimo esquisita. Nunca abria os presentes que recebia. Fosse em seu aniversário, no natal ou em outra ocasião em que um amigo ou parente lhe oferecesse um regalo qualquer. Os recebia com um agradecimento sincero e sorriso aberto, mas discretamente saía para o quarto e o guardava no armário. Quando pequeno, colocava-o na bolsa ou ainda ficava apenas segurando sem sequer tocar na fita durex. Alguns até perguntavam com inocência "Não vai ver o que é?". Ela dizia sempre com muita desenvoltura que preferia fazê-lo depois.

Muitos consideravam uma tremenda falta de educação o fato dela não desembrulhar o presente logo assim que fosse recebido, mas poucos sabiam que na realidade em momento algum Camila o faria.

Isso começou ainda na infância quando já era capaz de abrir um embrulho com suas próprias mãos. Seus pais mesmo intrigados com a total falta de curiosidade da menina - peculiar em uma criança ao receber um mimo qualquer - respeitavam sua vontade e costumavam usar aquelas caixas enfeitadas em suas festinhas de aniversário, onde os convidados podiam depositar o presente. Assim, não gerava nenhum tipo de suspeita e nem aguçava a curiosidade alheia.

A única maneira de Camila concordar em receber um presente era ela própria indo à loja e escolhendo aquilo que a agradava. Embrulhar para presente, nunca.

Seus pais sempre muito cismados, já haviam perguntado à moça pelo menos uma centena de vezes "Por quê?!"
Ela se abstinha em responder com um simples "Não gosto, ué", como se aquela reação fosse natural e totalmente compreensível.

Ao longo dos anos, todos os embrulhos em tamanhos e cores dos mais diversos acumularam-se de tal forma, que foi necessária a construção de uma espécie de galpão aos fundos da casa a fim de armazená-los.

Havia particularidades na esquisitice: a moça não se contentava em apenas não abrir os presentes, ela também não deixava que ninguém o fizesse. Estava ainda fora de cogitação um outro destino para os desprezados senão o tal galpão. Para mim, sinal de que na verdade não eram tão desprezados assim.

Camila já estava há pelo menos um ano com Serginho, mas por não saber a reação do namorado, nunca confessou sua extravagância. Este por sua vez, também nunca desconfiou, mesmo nenhuma vez a tendo visto com qualquer dos presentes que lhe ofereceu. Era distraído, porém muito apaixonado.

Até o dia em que Serginho resolveu fazer uma surpresa à amada: comprou alianças para lhe propor casamento. Seguindo o ritual para o intento, levou Camila para jantar. Num clima agradável e que julgou apropriado, inclinou-se sobre a mesa colocando a pequena caixinha preta bem à frente da namorada: - Toma, quero que veja.

Camila mesmo já tendo negado com delicadeza um pedido desse tipo tantas vezes em sua vida, perturbou-se. No fundo ela tinha certeza do que se tratava e sabia que não podia recusar desta vez. Mas era física e psicologicamente impossível para ela abrir a caixinha.

Nah, eu não sei como Camila saiu dessa ou se saiu. Fiquei até meio chateada de não ficar sabendo, aliás.

Na verdade, tenho alguns palpites, mas achei melhor que cada um tirasse suas próprias conclusões. Só sei que era uma menina difícil...

Update: Olhou o namorado com um carinho triste, mas sorriu. Com a caixinha na mão, deu um beijo em sua testa sem proferir uma palavra sequer, levantou-se e foi para casa. Chegando lá, não se dirigiu para o galpão como de costume, apenas guardou a pequena caixa na gaveta da penteadeira junto com mais três ou quatro parecidas que ali estavam.

Serginho, mesmo parecendo nunca ter prestado atenção na estranha mania de Camila, compreendeu sua atitude e nunca mais a procurou. Pouco tempo depois, casou-se com uma amiga da faculdade que há tempos mostrava interesse pelo rapaz.

Camila ficou doente por muito tempo e faleceu no dia de seu aniversário, no ano seguinte.

Uns acabaram se conformando que aquela pneumonia havia sido implacável, outros acreditavam que tinha sido a tristeza, por nunca ter sido bem sucedida no amor. Mas para mim, o que a matou foi ter percebido que sua vida era um grande presente, um presente que ela nunca conseguiria abrir. Até gostaria, mas nunca conseguiria.

Anna Paula Maron, 23:04 | Comente (13) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 23 de junho de 2003

"Uns trezentos mil" - pensou Dagberto sobre a casa em frente a pracinha que exibia uma plaqueta anunciando a venda.

"Nossa, é mesmo enorme. E têm quatro quartos. Mas está tão mal tratada que não deve nem valer isso" - continuou avaliando e parado bem em frente, anotava o número de telefone também impresso.

Enquanto seguia a pé o rumo de casa, pensava na distribuição de todo aquele espaço: um dos quartos seria das crianças e outro serviria de biblioteca. Sem contar com a suíte do casal, claro. O que ficasse sobrando naturalmente faria de hóspedes, para aquelas reuniões de varar a noite, que Dagberto tanto gostava de organizar.

Continuava ainda conjeturando o valor do imóvel: mesmo com todo o conforto que parecia apresentar, precisava mesmo de uma baita reforma, se encontrava em estado lastimável, quase abandono. Não conseguia nem imaginar que alguém pudesse viver ali. Não passaria de duzentos mil.

Talvez os donos estivessem mesmo querendo se livrar da casa o quanto antes para mudarem para uma menor ou até um apartamento. Oferecendo uns cento e cinqüenta mil eles devem fechar negócio.

E prosseguia imaginando seu Labrador junto com o Golden Retriever correndo atrás do Weimaraner para a pracinha ao encontro das crianças, que passariam a tarde brincando enquanto a família reunida na varanda conversava depois do almoço de domingo.

Chegando em casa, tratou de checar quanto seria possível retirar do fundo de garantia e foi logo discando o número anunciado na placa.

A secretária atendeu e enquanto Dagberto aguardava a vinda do corretor ao telefone, pensou que os donos deviam mesmo estar com a corda no pescoço e não recusariam sua oferta de noventa mil.

- Pois não, aqui é Fernando o corretor, em que posso lhe ajudar?
- É sobre aquela casa em frente à pracinha, gostaria de saber por quanto estão vendendo.
- Ah, sim, claro. Um milhão, senhor.

Dagberto, humilhado, só teve forças para dizer:

- Vocês aceitam financiamento?

Toda historinha precisa ter moral? Se sim, para você qual é a dessa afinal? (até rimou)

Anna Paula Maron, 15:05 | Comente (15) | Ai, lá vem você?

sexta-feira, 20 de junho de 2003

Era tarde da noite, o rapaz vinha correndo pelo meio fio. Descalço, usava calça jeans e uma camisa de botão aberta. Segurava uma sacola plástica e um pedaço de cabo de vassoura. Fez sinal para o ônibus que parou e o deixou entrar pela porta da frente.

Ao entrar, subiu num dos bancos e de pé, fitou todos os quatro passageiros que ali estavam e pensavam apenas na cama fofinha que os esperava em casa, mais nada.

O rapaz acabou por sentar e começou uma acirrada discussão consigo mesmo. Alguns minutos depois, levantou e se dirigiu até o final do ônibus. Lá, tentou de toda maneira encaixar o pedaço de cabo de vassoura numa das janelas, sem sucesso. Voltou até a frente do veículo e assim iniciou um percurso de ida e volta até o tal objeto que havia ficado preso em algum buraco lá atrás.

Finalmente voltou a frente e sentou junto à sacola que havia trazido consigo. De repente um dos passageiros levou uma pãozada no ombro. Isso mesmo. O rapaz tirou de sua sacola um pão francês, velho e o jogou no pobre passageiro. Este, que ali estava apenas imaginando chegar o quanto antes ao aconchego de seu lar, não titubeou, pegou o francês esfarelado que caiu no chão e o jogou de volta. Bateu no peito do rapaz, que se mostrou bastante surpreso. Ele apenas baixou a cabeça e colocou o pão no bolso da camisa. Saltou dois pontos depois.

Cá entre nós....você também não acha que o pão disse alguma coisa para ele?

Anna Paula Maron, 01:48 | Comente (8) | Ai, lá vem você?

segunda-feira, 9 de junho de 2003

- Ah, não. Desliga você.
- Ok, ok...vou contar até três e desligar, tá bom? Então me manda outro beijinho.
- sssssssmack!!
- Hummmm. Tenho mesmo que desligar, né? Vou começar: um.....dois.....três e ....já.

Um breve silêncio. Marina continuou:

- Xuxuco, você não desligou!
- Ai, desculpa, neném. Eu pensei que você fosse fazer.
- Mas meu amor, eu esperei que você fizesse.
- Tá, tá bom. De novo então: um...dois...três e já.

E mais uma vez o silêncio perdurou.

- Xuxuquinho! Desliga, vai. Eu não tenho coragem! E a mamãe já veio aqui no quarto de novo. Eu te ligo assim que ela acabar de usar o telefone.
- Ah, droga. Nem eu. Mas por que você simplesmente não acredita que eu vou desligar e bota o telefone no gancho?
- Porque eu sei que você está mentindo.
- Como assim sabe que eu tô mentindo?
- Sei, ué. Eu fico na linha só pra confirmar.
- Mas que história é essa agora, você não confia em mim?
- Não. E tá mais do que provado que você não tem palavra. Diz que vai fazer e não faz!
- Puxa, eu pensei que você confiasse em mim!
- Como eu posso confiar se você mente por bobagem? Imagina coisa séria.
- Você tá querendo insinuar o que com essa história?
- Nada, meu amor. Eu só preciso desligar porque minha mãe quer usar. Eu te ligo daqui a pouquinho.
- Não, espera aí. O que você tá dizendo é muito sério. Como a gente pode conviver tanto tempo com uma pessoa e descobrir assim que ela não confia na gente?
- Plínio, você tá se exaltando sem necessidade, deixa de bobagem, te ligo.
- Agora ainda me chama de Plínio. Em nem me lembro mais qual foi a última vez que você me chamou pelo nome! O que está havendo contigo, neném?!
- Mas caramba. Isso tudo só porque eu preciso desligar o telefone agora e você se recusa a fazer pra mim??
- Nada disso. Isso é porque você não confia em mim. Porque você tá fazendo alguma insinuação que eu não consegui entender e porque ainda me chamou pelo nome. Tem pelo menos uns 3 anos que você não me chama pelo nome. Você está estranha.
- Ô, Plínio. Faz uma coisa então: vai a merda e procura outra palhaça pra azucrinar que já me encheu. Tchau.

Marina desligou o telefone na cara do namorado e eles nunca mais se viram ou se falaram. Ela casou com Maurício que é impaciente, assim como ela. Se entendem que é uma beleza. Plínio até hoje espera uma explicação.

Anna Paula Maron, 23:17 | Comente (11) | Ai, lá vem você?

quinta-feira, 29 de maio de 2003

- Ô, Nina, lembra do Walter, aquele cara lá da firma? - perguntou Celso à esposa que preparava o jantar.
- Sei, o que tem ele?
- A gente se encontrou hoje na fila do banco. Você precisa ver como ele tá.
- Como assim, engordou, emagreceu?
- Nada, tá a mesma coisa, mesmo cavanhaque, aquele gel escroto no que resta de cabelo na cabeça. Só que casou com uma coroa cheia da grana logo depois que foi chutado lá do serviço.
- É, é? Esses golpes já tão mais do que manjados, tem isso em tudo que é novela e essas otárias sempre caindo. Tsc, tsc, tsc...
- Que nada, Nina. O cara tá apaixonado, diz que ela é tudo que ele sempre quis na vida.
- Ah, claro. Cheia do dinheiro. Quem não quer?
- Foi isso que eu falei também, né? Ele disse que mesmo que ela não tivesse onde cair morta ele ficava com ela. Mas você precisa ver a beca do homem. Tava na fila do banco todo arrumadão, só roupa boa. Perguntou de você e chamou a gente pra jantar lá na casa dele um dia desses, tá morando numa mansão lá no Jardim Botânico. Deu o cartão, falou que era só ligar e marcar.
- Eu hein, eu vou lá me enfiar em casa de bacana? Não tenho nem roupa pra isso, Celso, nem inventa.
- Que isso, Nina. E aquele vestido bonitão que eu te comprei pra ir nos quinze anos da Tatiana?
- Rá, você tá brincando comigo. Sabe quantos quilos eu engordei depois daquela festa, Celso? Sabe quanto tempo faz isso?
- Ué, deve ter uns três anos, não cabe mais não, é?

Nina por um instante parou de picar a salsinha, respirou fundo e com os olhos lacrimejando despejou:

- Eu só vou dizer pra você que a Tatiana já está com 22 anos. Depois de passados SETE anos, aquele vestido cafona não cabe mais em mim não. E você sabe por quê? Porque eu engordei oito quilos de lá pra cá. E você sabe por que eu engordei? Porque eu virei uma dona de casa patética, você nunca me deixou trabalhar e a minha vida é ficar dentro dessa casa cuidando de um marido de merda que não me olha e nem um beijo na boca me dá mais.
Passo os meus dias arrumando, lavando, passando, cozinhando, vendo novela e falando da vida alheia com essa vizinhança escrota que não olha para o próprio rabo. Aliás, assim como eu, que tinha beleza, uma vida confortável, carreira promissora, e uma porção de pretendentes que passavam longe do borra botas que você é. Mas briguei com os meus pais, perdi meus amigos e vim parar nesse fim de mundo com um perdedor, estéril que nem um emprego decente consegue arrumar. Pensando bem, melhor você não poder ter filho mesmo, porque nem uma vida digna o pobre ia ter.

Celso atônito ouvia aquelas palavras cheias de rancor e frustração cuspidas da boca de sua esposa com quem ele havia se casado há quase dez anos e que mal ou bem, ainda tinha uma certa afeição.

Quando se conheceram no quiosque em frente ao prédio do jornal onde Nina trabalhava como fotógrafa, foi amor à primeira vista. Ele não conseguiu tirar os olhos daquela moça que passou para comprar um maço de cigarros. Ela, por sua vez, também não podia deixar de notar aquele belo sorriso em sua direção.

Coisa que nunca havia feito antes foi sentar-se ali - gostava de fumar caminhando, para ajudar na digestão do almoço. Mas foi exatamente o que fez aquele dia. Celso aproximou-se e a partir dali sua vida nunca mais foi a mesma. Brigou contra tudo e contra todos que não aprovavam a união do casal. Pouco mais de seis meses depois estavam casados. Nina mudou-se para Campos Elíseos onde Celso construía uma modesta casa, mas pelo menos não viveriam de aluguel.

Nina não conseguiu manter o emprego no jornal e o marido logo sugeriu que ela ficasse apenas cuidando dos afazeres do lar enquanto ele se virava com o sustento. Mas Celso nunca parava muito tempo num lugar só. Vivia dizendo que aquele novo trabalho era o melhor de todos, mas não dava dois meses saía em busca de outro. Os anos foram passando e a rotina continuava a mesma.

Após três anos tentando engravidar sem obter nenhum resultado, Nina procurou um médico que disse que ela encontrava-se em perfeitas condições de ter filhos. O problema estava com Celso, ele era estéril. Pensaram na possibilidade de adotar uma criança, mas Celso se mostrava cada vez mais indiferente, além da situação financeira acabar sempre adiando a decisão.

- Nina, eu....

Tudo isso passou como um flash na cabeça de Celso, que depois de todos esses anos nunca havia parado pra pensar no que havia se tornado. No que havia feito com sua vida, seu casamento, sua mulher e com o amor desmedido que um cultivava pelo outro.

- E você quer saber do que mais? Eu vou embora dessa porcaria é agora. Não quero nunca mais olhar pra essa sua cara de zé ninguém.

Então Nina enxugou as mãos no pano de prato e foi para o quarto. Ouvia-se o abre e fecha do armário misturado ao som do zíper da bolsa de viagem.

Celso não conseguiu se levantar da cadeira. Só tentava recordar o que havia falado ali naquela conversa absurdamente banal para despertar toda aquela fúria na mulher que afinal sempre o tratava com tanta gentileza.

Nada que fosse dito faria com que ele aceitasse que o tempo, as amarguras, as frustrações e os fracassos deterioraram todos os planos e sonhos que aquele jovem e belo casal há dez anos pensava em um dia realizar.

Anna Paula Maron, 02:08 | Comente (14) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 22 de abril de 2003

Me empolguei. Resolvi elaborar uma série de contos sobre gente "que não tem jeito mesmo". Tanto para o bem, quanto para o mal.

Não vai haver uma periodicidade fixa, quanto me der na telha, coloco alguma coisa aqui.

Para inaugurar, começo com esse sem nome mesmo, sou péssima para dar nomes.

"Essa menina é insociável" era o que todos naquela casa diziam de Tamires.
Ninguém podia lhe chamar a atenção, era cheia de caprichos, desobedecia simplesmente pelo prazer de não obedecer. Seus pais já não sabiam mais como lidar com a criança.

Procuraram a ajuda de um especialista que afirmou se tratar de carência afetiva. Sentindo-se culpados, lhe enchiam de atenção, faziam todas as suas vontades, sem no entanto, obter qualquer resultado. Resolveram então, agir da maneira oposta, fingindo que não davam nenhuma importância aos seus caprichos, mas a menina era tinhosa, isso não a abalou.

Na adolescência, além da escola, freqüentou balé, natação, academia, diversos cursos de idiomas, mas nada fazia com que Tamires deixasse a rabugice de lado. Era incrivelmente repudiada por todos os colegas, e parecia que isso a agradava. Além do olhar de completo desdém, carregava sempre consigo aquele sorrisinho sarcástico no canto da boca.

Enquanto seu pai sofria um infarto no meio da última discussão que tiveram, ela retirou-se da sala e foi terminar a lição de casa - sua única virtude era a responsabilidade com os estudos, era aluna exemplar. Sua mãe aos prantos gritava pela ajuda dos empregados para que chamassem uma ambulância.

Cerca de meia hora após o acontecido com a chegada dos paramédicos, toda a movimentação na casa e a notícia do falecimento de seu pai, Tamires desceu as escadas e pediu à todos que diminuíssem o tom de voz, afinal no meio de todo aquele barulho seria impossível se concentrar.

Anna Paula Maron, 18:44 | Comente (4) | Ai, lá vem você?

terça-feira, 15 de abril de 2003

Gerson sempre foi chamado de Professor Pardal na escola. Semana passada houve a Feira de Ciências Anual e ele pode apresentar o seu mais novo invento: uma máquina para quantificar e qualificar os seres você já matou em toda a sua vida. A tal máquina ignora formigas. Porque afinal de contas quantas formigas nós matamos enquanto andamos por aí? Seria um número absurdo para uma pessoa de 30 anos, por exemplo. Ele tomou o cuidado de deixar o inseto de lado pra que o invento não se desorientasse.

Foi sem sombra de dúvidas a sensação da Feira. Era uma fila interminável, uma grande parte queria experimentar o engenho pra verificar se a história era mesmo verdade. Alguns poucos riam e faziam piada da geringonça de Gerson. Uns faziam até apostas em dinheiro alto sobre a quantidade de camundongos que Marcus, o professor de biologia, já havia dado cabo em toda a sua vida. Outros, saíram de fininho e não quiseram nem se aproximar.

Chegou a vez de Bia. Ela usava um daqueles fundo de garrafa e sentava ao lado da mesa do professor na sala de aula. Seu caderno era sempre tomado como exemplo e era por lá que os professores sabiam onde tinham parado a matéria na aula anterior.

Bia sentou-se na "cadeira da verdade" - assim apelidada pelos que já a haviam experimentado - alguns eletrodos foram ligados à sua cabeça e depois de alguns minutos saiu o resultado num pedaço de papel que mais parecia ter saído de uma daquelas máquinas registradoras de supermercado onde consta data, hora da compra e tudo que foi adquirido ali em suas devidas quantidades.

Gerson pegou o papel e o olhou com espanto, não conseguia proferir uma só palavra. Bia, assustada com o semblante do colega ao ver sua "notinha", tirou-a de sua mão num repente, encaixou os óculos e começou a ler. Levando a mão até a boca, não pode conter as lágrimas que caíam sobre seu rosto. Saiu correndo e gritando pelo meio da multidão: - Não pode ser! não pode ser! mentira! máquina de merda!

Todos se entreolharam sem saber o que pensar. Afinal, quem ou o quê, aquela doce menina de espinhas no rosto poderia ter matado?

Anna Paula Maron, 11:38 | Comente (27) | Ai, lá vem você?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2003

Ontem eu comecei a ler um livro infanto-juvenil com uma historinha bastante interessante que vou tentar resumir uma tradução aqui:

Era uma vez uma princesa chamada Talita.

Talita era uma moça popular no seu reino, todos gostavam muito de sua companhia e a achavam divertida. Mas Talita tinha um grave problema. Só se envolvia com camponeses, e os da pior espécie. Ela sonhava encontrar um homem que não necessariamente fosse um príncipe, afinal tratava-se de uma moça até bem moderna para época, ela sabia que a felicidade não estava num "príncipe encantado", com todas as qualidades que vêm embutidas num exemplar.

Talita já havia passado por muitas desilusões amorosas e acabou por se tornar covarde no que diz respeito à afetividade.

Eis que um belo dia ela reencontra um velho amigo - Ciro, daqueles que gostavam muito de sua companhia e a achavam divertida.

Eles se olham e beijam-se. Num segundo momento, percebem que se amam. Um amor puro, livre de ressentimentos, desconfianças e inseguranças. Eles passam a se encontrar com muita frequência e o amor aumenta a cada dia. A jovem se vê livre de toda a insegurança e covardia que cultivava até então. Talita está finalmente convencida de que achou o homem da sua vida, com quem pretende casar e constituir uma família.

Mas o que Talita não podia esperar era que Ciro também cultivava em seu coração a tal insegurança e covardia, da qual ela já havia se livrado.

Tais sentimentos foram obtidos numa união no qual Ciro julgava definitiva, mas que acabou maculando toda a confiança que habitava seu coração. Ciro havia se tornado um jovem rancoroso e covarde, e mesmo com todo o amor que Talita lhe oferecia, não conseguia se libertar dos sentimentos nefastos que ainda o assombravam.

O que acabava causando um desconforto muito grande no rapaz quando a jovem ensaiava fazer planos para um futuro onde eles estariam juntos. Só que Talita sempre percebia o mal-estar que causava em seu amado quanto tocava no assunto, fato que a deixava muito triste. Ela sabia o mal que o medo e a covardia poderiam trazer para suas vidas em comum.

Bom, ainda não terminei de ler o libreto, aguarde as cenas dos próximos capítulos. E esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Anna Paula Maron, 15:13 | Comente (2) | Ai, lá vem você?