Camila era amável, brincalhona e possuía uma mania no mínimo esquisita. Nunca abria os presentes que recebia. Fosse em seu aniversário, no natal ou em outra ocasião em que um amigo ou parente lhe oferecesse um regalo qualquer. Os recebia com um agradecimento sincero e sorriso aberto, mas discretamente saía para o quarto e o guardava no armário. Quando pequeno, colocava-o na bolsa ou ainda ficava apenas segurando sem sequer tocar na fita durex. Alguns até perguntavam com inocência “Não vai ver o que é?”. Ela dizia sempre com muita desenvoltura que preferia fazê-lo depois.
Muitos consideravam uma tremenda falta de educação o fato dela não desembrulhar o presente logo assim que fosse recebido, mas poucos sabiam que na realidade em momento algum Camila o faria.
Isso começou ainda na infância quando já era capaz de abrir um embrulho com suas próprias mãos. Seus pais mesmo intrigados com a total falta de curiosidade da menina - peculiar em uma criança ao receber um mimo qualquer - respeitavam sua vontade e costumavam usar aquelas caixas enfeitadas em suas festinhas de aniversário, onde os convidados podiam depositar o presente. Assim, não gerava nenhum tipo de suspeita e nem aguçava a curiosidade alheia.
A única maneira de Camila concordar em receber um presente era ela própria indo à loja e escolhendo aquilo que a agradava. Embrulhar para presente, nunca.
Seus pais sempre muito cismados, já haviam perguntado à moça pelo menos uma centena de vezes “Por quê?!”
Ela se abstinha em responder com um simples “Não gosto, ué”, como se aquela reação fosse natural e totalmente compreensível.
Ao longo dos anos, todos os embrulhos em tamanhos e cores dos mais diversos acumularam-se de tal forma, que foi necessária a construção de uma espécie de galpão aos fundos da casa a fim de armazená-los.
Havia particularidades na esquisitice: a moça não se contentava em apenas não abrir os presentes, ela também não deixava que ninguém o fizesse. Estava ainda fora de cogitação um outro destino para os desprezados senão o tal galpão. Para mim, sinal de que na verdade não eram tão desprezados assim.
Camila já estava há pelo menos um ano com Serginho, mas por não saber a reação do namorado, nunca confessou sua extravagância. Este por sua vez, também nunca desconfiou, mesmo nenhuma vez a tendo visto com qualquer dos presentes que lhe ofereceu. Era distraído, porém muito apaixonado.
Até o dia em que Serginho resolveu fazer uma surpresa à amada: comprou alianças para lhe propor casamento. Seguindo o ritual para o intento, levou Camila para jantar. Num clima agradável e que julgou apropriado, inclinou-se sobre a mesa colocando a pequena caixinha preta bem à frente da namorada: - Toma, quero que veja.
Camila mesmo já tendo negado com delicadeza um pedido desse tipo tantas vezes em sua vida, perturbou-se. No fundo ela tinha certeza do que se tratava e sabia que não podia recusar desta vez. Mas era física e psicologicamente impossível para ela abrir a caixinha.
Nah, eu não sei como Camila saiu dessa ou se saiu. Fiquei até meio chateada de não ficar sabendo, aliás.
Na verdade, tenho alguns palpites, mas achei melhor que cada um tirasse suas próprias conclusões. Só sei que era uma menina difícil…
Update: Olhou o namorado com um carinho triste, mas sorriu. Com a caixinha na mão, deu um beijo em sua testa sem proferir uma palavra sequer, levantou-se e foi para casa. Chegando lá, não se dirigiu para o galpão como de costume, apenas guardou a pequena caixa na gaveta da penteadeira junto com mais três ou quatro parecidas que ali estavam.
Serginho, mesmo parecendo nunca ter prestado atenção na estranha mania de Camila, compreendeu sua atitude e nunca mais a procurou. Pouco tempo depois, casou-se com uma amiga da faculdade que há tempos mostrava interesse pelo rapaz.
Camila ficou doente por muito tempo e faleceu no dia de seu aniversário, no ano seguinte.
Uns acabaram se conformando que aquela pneumonia havia sido implacável, outros acreditavam que tinha sido a tristeza, por nunca ter sido bem sucedida no amor. Mas para mim, o que a matou foi ter percebido que sua vida era um grande presente, um presente que ela nunca conseguiria abrir. Até gostaria, mas nunca conseguiria.