Há um certo tempo atrás, peguei emprestado com uma amiga “O Retrato de Dorian Gray“. O exemplar era um daqueles livros de bolso e já bem detonado, com algumas páginas soltas.
Eu tenho verdadeiro horror a livro mal cuidado. Nem o abro direito pra ler se vejo que posso danificar mais ainda. Mas esse estava ali em minhas mãos e não podia desperdiçar a oportunidade.
É bem verdade que eu tinha um emprego onde passava a maior parte do meu tempo navegando na Internet ou lendo. Trabalho mesmo, raramente. Eu gastava minhas horas para que se uma eventual tarefa me fosse designada eu estivesse lá. E numa dessas minhas tardes desocupadas, li aquele pequeno livro despencado, tomando o devido cuidado em olhar página por página, para me certificar de que estavam todas lá, em seus devidos lugares.
O livro, para quem ainda não conhece, conta a história de um jovem aristocrata cuja aparência é de tal pureza que um pintor seu amigo, ao retratá-lo, deseja que ele jamais perca aquela imagem angelical.
Como que por encanto, o desejo é realizado e embora o jovem passe a levar uma vida devassa e cheia de atitudes perversas, seus excessos e caráter desumano não lhe marcam o rosto, mas vão aparecendo no retrato.
Aos poucos a imagem vai se tornando tão grotesca e assustadora que nem mesmo Dorian é capaz de olhar para sua verdadeira aparência, escondendo o retrato no sótão. Apesar de todos os comentários que sua vida boêmia e sádica provoca, ele evoca sua face jovem e tranqüila, que nem parece sentir o passar dos anos.
Leitura imperdível, na minha opinião. Mostra a visão do autor sobre as relações humanas e a estética e te faz pensar em como estaria seu quadro, se você possuísse um igual ao de Dorian.
Mas voltando as minhas tardes repletas de ociosidade, numa delas, como eu já havia dito, devorei o romance, não conseguia parar de ler. E quando faltavam justamente duas páginas para o final, apareceu um trabalho para mim!
Eu não conseguia saber se era mais emocionante lê-lo até o fim ou executar imediatamente a labuta inesperada. Pois sem muita hesitação me resolvi por realizar o tal trabalho. Deixei o livro sobre a mesa. E por total descuido ou emoção, aberto.
Depois de executada com presteza minha tarefa, voltei para a minha deliciosa leitura, ávida em saber o que finalmente aconteceria ao cruel protagonista da história.
E aconteceu isso mesmo que você está pensando: com o vento, as últimas duas páginas do livrete haviam de desprendido e eu fiquei sem saber o final da história.
Busquei-as como uma louca, arrastando mesas, cadeiras, tudo em vão. Não consegui achar.
Qual é a moral da história? Algo do tipo… deixa de ser mão de vaca e desembolsa dez real pra comprar uma edição decente que você possa ler até o fim, mesmo que passe um ventinho.
Mas essa historinha teve final feliz sim. No dia seguinte, depois de uma noite mal dormida imaginando o que afinal teria acontecido ao belo aristocrata, a chefa achou as duas páginas fugitivas que tinham ido parar atrás de um dos armários e eu pude me deleitar com o final inesperado.